Se engana quem diz que conhece o Brasil.
O Brasil é muito grande. Muito diverso. Extenso. Multifacial.
Por analogia , se engana quem diz que conhece o enduro no Brasil.
Muito além das manchetes nas revistas e dos clicks na internet , existe uma verdadeira nação de treieiros anônimos neste país.
Difícil uma cidade do interior que não tenha dois , três , dez , vinte caras , percorrendo cartões postais , em bases regulares , no anonimato.
Anônimos , mas , não menos habilidosos ou apaixonados , estes caras demonstram sua força traduzida no crescimento exponencial do mercado de motocicletas e equipamentos.
Por sorte , temos também um brasileiro , na verdade um grupo de brasileiros , tão apaixonado quanto , no comando dos negócios direcionados a este setor.
Pouco a pouco , ano após ano , nossos equipamentos ganham qualidade , diversidade e , a identidade Brasileira.
Eu sou um bicho do mato confesso.
Meu negócio é descarregar , vestir o equipo , dar quantas voltas forem possíveis , carregar e sair fora. Pra casa. Comer arroz/feijão , descansar e ...... , SONHAR COM AS CURVAS...!!!
Social , nunca foi minha praia.
Ontem , mais uma vez , pude ter a noção exata do que se “perde” , agindo assim.
Estive numa confraternização. O aniversário de fundação da marca brasileira numero 1.
Qualquer um do off road , de norte a sul , rico ou pobre , roia ou pró , usa , usou , ou usará , uma peça confeccionada por estes caras.
Um evento único.
Uma imagem verdadeira do que é , de quem faz , o enduro no Brasil.
Como de costume , fui pensando na pista. Só.
Como pude perceber. Tava enganado.
O BirthDay é um dia em que , a “social” , o reencontro com os compadres , é tão legal quanto o rolê.
Mesmo para um bicho do mato , motohead , incurável.
Desci do carro cumprimentando figuras ilustres e amigos queridos. Dividi o circuito com “motoheads” de respeito e troquei longas idéias com gente que fala , com muita fluência e propriedade , nossa língua pátria: MOTO!
Adorei! Era muita gente boa no mesmo lugar.....!
Poderiam ter sido SIX BIRTH DAYS , que não faltaria assunto.
O circuito , assinado por outro ícone do off road (um sujeito que teve a capacidade e a teimosia de abrir uma pista de XC que NUNCA fechou) , tava ....... , do jeito!
Do jeito , que tem que ser. Seguro , bem traçado e .... difícil.
O “difícil” ficou a cargo da mãe natureza que , chorando como tem feito , não deixou nada seco.
A parada tava lisa... Bem lisa....
Eu , adoro!
Uma pista tem que ter um atrativo fundamental. A velocidade , a beleza do site , o nível técnico dos obstáculos , enfim , algo que faça valer.
Um “desafio” , como dizem os homens de gravata permanente.
As primeiras voltas foram de “transposição”. Tipo.... , “vou me ater a completar a volta”.
Fui um dos primeiros a entrar. Não conhecia o traçado e , tava liso.
Na sequencia , a familiarização e os “trilhos” formados , foram gradativamente dando espaço para o “vou tentar estabelecer um ritmo”.
E assim , foram várias voltas de curtição total.
Não , não deu pra dar pau. Não deu pra escutar a ignição cortando.
Mas , deu pra se concentrar , tentando manter a trajetória num lugar que tava difícil , muito difícil , até pra andar a pé.
Depois , a chuva caiu. Forte.
Nos recolhemos prum barracão daqueles .... “segurança máxima”....!
Se cai um meteoro ali , acaba com boa parte da história do enduro no Brasil.
Por sorte , só o que rolava ali dentro , eram picolés de chocolate e espetinhos espertos.
Fui intercalando....: uma personalidade , um picolé , uma personalidade , um espetinho , outra figura , mais um gelado , uma parte da história , outro espetinho.
Lá pelas tantas , em meio à água , trovões ecoaram na encosta.
Fortes e repetidos , para o espanto de alguns.
Quando todo mundo achou que já era o bastante por um dia , surgi uma DR 400 , numa pista vazia , dominada pela água.
Uma cena surreal.... Um grupo enorme de “motoheads” , observando um só piloto , dando infinitas voltas sob forte chuva , aparentemente , alheio a todas as vistas.
E assim , permaneceu por vários minutos. Sem tirar a mão.
Perfeitamente adaptado ao mar de lama.
Como se aquilo fosse algo assim.... comum.
Andar sozinho , literalmente embaixo d água , com uma enorme platéia , comendo espetinhos...!!!
A camisa , não pude deixar de reparar , dizia Limonta.
Ninguém ao meu redor duvidou. O ritmo e o gosto eram condizentes.
Qual não foi minha surpresa , quando vejo o próprio , a metros de distancia , limpinho , de roupa “social”.
Seu “sósia” era na verdade , Nielsen que estava , até onde pude entender , usado outra camisa.
Enfim , este cara , Nielsen , Limonta , Zanol (que tb estava lá...!) , José , João , Pedro....
Este cara , seja ele quem for , me deixou a melhor imagem da festa.
A imagem da nossa essência , do nosso amor.
Diante do “silencio” da tempestade , de alma literalmente lavada , ignorando tudo (até mesmo a camisa que estava usando) , esse cara andou.... Andou forte , com paixão e concentração.
Fez naquele momento o que todos nós temos como ideal: Andou por ele mesmo , ignorando tudo , vivendo com intensidade o momento.
Simplesmente andou de moto , sem se importar com o que estava acontecendo ao seu redor.
Ride. Just ride. That´s all about it.
MOTOHEAD





















