Meu “alvo” desta vez é um garoto que eu conheci quando ele tinha uns 15 ou 16 anos.
Naquela época eu era iniciante nas trilhas. Minha moto era uma antiga Honda XR 250, 4 tempos, importada, ano 1991 (mesma família das históricas XR 400). O ano era 1998, e eu tive a oportunidade de ser o “limpa trilha” do Enduro da Independência. Foi um serviço muito pesado, e minha valorosa “Xizérrinha” teve que rebocar muitos pilotos. Aí o motor, na chegada da prova, fumava mais que moto 2 tempos com 6% de óleo na mistura...
Precisei encomendar as peças do motor, lá nos Estados Unidos, e fiquei um tempo sem a moto. Eu morava em Belo Horizonte, e fui recomendado a fazer o serviço na oficina do “Véio Jacyr”. Quando fui deixar a moto, o simpático “velhinho” me recebeu, gente fina que só ele. Conversamos bastante, e ele me contou que fazia trilhas com uma “Alfer” (modelo espanhol) e seu filho também, com um a KX velhinha que dava dó.
Alguns dias depois, quando fui buscar a moto, já pronta, estava lá o “tal” menino, franzino, magrinho, e ele me disse: “espera só um minutinho que antes de entregar sua moto vou fazer um teste”. E saiu pela rua, aquele “garoto”, acelerando minha magrelinha.
Ele demorou uns 30 minutos para voltar. Era de noite, e ele perdeu um tempo, procurando a tampa do filtro de ar, pois havia esquecido de travá-la, e ela caiu no meio da rua. Quando ele me contou pensei: “isso que dá deixar a moto com um menino, para fazer um teste!”.
Deixamos agendado que no sábado seguinte iríamos “amaciar” o motor, já que todas as peças eram novas. Marcamos encontro, e lá estava o “menino”, a bordo de sua KX 250. No deslocamento em asfalto, até a boca da trilha, em plena “Avenida Contorno”, estávamos todos os 6 trilheiros, diminuindo as velocidades das motos, para parar no sinal de trânsito.
Nunca vou me esquecer daquele momento, quando olhei para o meu lado direito, e vi o “menino”, descendo a rua somente com a roda dianteira no chão, e a traseira levantada quase 1 metro... Ele foi controlando-a, até o limite máximo do sinal de trânsito. Quando chegou, ainda deu aquele beliscadinha “extra” no freio dianteiro, e depois deixou a moto repousar suavemente.
Naquele instante pensei: “puxa, mas esse garoto é fera. Pode um dia ser um grande campeão!” E não deu outra, ele é, nada menos, que Felipe Zanol, penta-campeão brasileiro de Enduro FIM, Bicampeão Português 2008/2009, e o melhor piloto brasileiro na história mundial do Enduro. A ele, (Felipe e Véio Jacyr), os parabéns do Jeca, pela simplicidade de sempre!!
PS: O Véio Jacyr, com seus 75 anos, acabou de quebrar a perna (no final de junho passado), ao final de uma trilha, quando trombou com um motoboy, já no asfalto... Eita véio danado uai, com 75 anos nas costas e trilhando até hoje...
Texto: Renato Furmann, o Jeca Jóia.





















