Em um de meus acessos à internet, onde gosto de passar as horas vagas pesquisando trilhas e lugares ainda desconhecidos para mim, cheguei a um relato da formatura de uma turma do Corpo de Bombeiros, onde os formandos, em uma espécie de batismo, percorriam uma belíssima trilha chamada Trilha do Barão, que liga a localidade de Castália, em Cachoeiras de Macacú à São Lourenço, na região dos Três Picos de Salinas, no município de Nova Friburgo.
Comecei a perguntar a alguns amigos sobre a possibilidade de se percorrer esta trilha em uma moto e recebi diversas opiniões que, em muitas das vezes, se contradiziam. Alguns me disseram que a trilha era muito travada, outros que era impossível transpor os obstáculos em uma moto e alguns, mais otimistas, me disseram que esta trilha havia sido “limpa” há pouco tempo e que seria possível percorrê-la sem maiores problemas, apesar de ser considerada mesmo como uma trilha “travada”.
Beleza! Era o que eu precisava ouvir de alguém! Que era possível percorrê-la em uma moto!
Troquei alguns e-mails no grupo “on-line/off-road” que faço parte e um amigo propôs a data: dia 08 de agosto de 2009. Com alguns telefonemas consegui mais três trilheiros de Nova Friburgo que já haviam feito esta trilha e se dispuseram a ir também. Com a moto revisada e um par de pneus novos, era só esperar pela data e ir conhecer a trilha pessoalmente.
Chegou o dia combinado. Padrone, meu amigo e sócio do Trail Clube Esqueleto do Mato, de Niterói, do qual eu também faço parte, chega em minha casa em Nova Friburgo com uma pontualidade britânica. 7:30h como havíamos combinado! Acabo de me arrumar e vamos ao encontro dos outros três amigos: André Bala, Luismar e Cláudio, ambos “da área” e conhecedores da região.
Todos juntos, partimos rumo ao destino traçado e percorremos uma bela estrada que liga a região do Pico do Caledônia à região dos Três Picos de Salinas, passando pelo Parque Estadual dos Três Picos. Somos agraciados com belíssimas paisagens à cada curva feita. A imponência dos Três Picos de Salinas, com sua formação rochosa única, impressiona.
Chegamos, finalmente, à São Lourenço, ponto de partida para descer a Serra do Mar em direção à Cachoeiras de Macacú. Ultrapassamos a porteira de entrada da trilha e percorremos aproximadamente 6 km em mata fechada, com suaves subidas e descidas e um belo córrego que nos acompanha até o início da descida da serra. Uma pausa para apreciar a bela paisagem da cidade de Cachoeiras de Macacú, que se abre em nossas vistas antes de iniciar a descida, e algumas fotos nossas para documentar o passeio.

Início da descida, algumas pedras no caminho e um pouco de umidade nos faz redobrar a atenção para que nenhum “terreno” seja comprado por nenhum de nós. Deixo todos ultrapassarem para tirar algumas fotos da galera e quando o Padrone, o último antes de mim, desaparece na trilha eu guardo minha máquina de retratos e ligo a moto para continuar o passeio.

Já havíamos percorrido uns 12 km quando em um “cotovelo” à esquerda descendo, a frente da minha moto desliza em uma pedra molhada e eu, com o pé esquerdo, apoio em outra pedra molhada para não cair. Meu pé então escorrega também e eu bato com a canela na pedra, sentindo logo em seguida a pancada da moto sobre esta mesma perna, criando um tipo de “alavanca”, com a roda da moto batendo no meu calcanhar, minha canela na pedra e o quadro da moto batendo na parte de trás do meu joelho.
Puta merda! Foi o pensamento que me veio à cabeça. “-Quebrei a perna”. Tento me levantar mas não consigo. A dor é forte e eu sou o último. Começo a chamar por meus companheiros e nada. Ninguém me ouve. Assovio e nada. Pego meu celular. Tem sinal! Beleza! Pelo menos, mesmo que demore, terei contato com meus amigos. 5 minutos e nada. Ninguém me ouve. Ninguém atende o telefone. 10 minutos e nada. Começo a ficar preocupado. De repente ouço alguém gritar: “-Rauuuuuulllll”. Po, alguém voltou! Eu grito em resposta: “-Opaa!! To com a perna quebrada!!” Era o Padrone que parou para me esperar e ouviu bem longe meu grito. Ainda tento montar na garupa da moto dele mas a dor é muito intensa e a trilha muito travada! Padrone, muito experiente em resgates na mata fica apreensivo, pois sabe que não iremos conseguir sair dali sozinhos. Tentamos ainda mais umas 5 ou 6 vezes mas não deu. A dor é cada vez mais forte.
De repente toca o telefone. São os outros companheiros querendo saber o que estava acontecendo. “-Raul quebrou a perna!”, responde Padrone. “-Não temos como sair daqui e teremos que acionar os Bombeiros para resgatá-lo.” continua.

193. Telefone de emergência do Corpo de Bombeiros. Padrone se identifica e relata o ocorrido, solicitando o resgate. Eu digo à ele: “-Fala que estamos na Trilha do Barão que eu sei que eles fazem treinamentos aqui nesta área!”. Ok, o atendente sabe onde é e irá mandar o resgate.
3:30h de espera. 8 km para baixo ou 6 km para cima é a distância que me separa de algum lugar aonde poderei entrar em uma ambulância. Ouço os bombeiros chegando e grito para que me localizem. Chegam 4 soldados e uma enfermeira. Perguntam se a dor é forte e eu digo que sim. Com calma retiram a minha bota. Cortam a calça para imobilizarem minha perna. A dor é quase insuportável. Minha perna é imobilizada. Logo aparece um mateiro com um burro. Ele se prontifica a emprestar o burro para ajudar no socorro. Me colocam no lombo do animal. Caramba! Minha perna quebrada, uma dor forte e eu me vejo sentado em um burro. Mesmo com a dor ainda penso: “-To ferrado. Nego vai me zuar muito depois.”. Os bombeiros, devido à dor que eu sinto, acham melhor subirmos a trilha e chegar a uma clareira, distante 6km de onde estamos, para que um helicóptero possa me resgatar. “-Meu Deus, helicóptero!” penso, “-Meus amigos irão me sacanear muito quando souberem!”.
6 km no lombo de um burro, com a perna quebrada, uma dor insuportável, bombeiros me salvando, helicóptero... só falta eu cair do burro. De repente um monte de mutucas, uma espécie de mosca do mato, começam a atacar o burrico e ele se sacode com o um cão faz ao sair de dentro d'água. “-AAAAAAAAiiiiiiiii, minha perna!”. Só me faltava essa agora. Mosca do mato atacando meu burrico.

1:30h no lombo do animal, finalmente chegamos a clareira onde o helicóptero teria condições de pousar. “-Graças à Deus! Agora eu vou sofrer menos.” Por contato via rádio, ouço a enfermeira dizer ao piloto do helicóptero que o GPS não está funcionando e que eles irão acender uma fogueira para que a fumaça sirva de guia. Em meio minuto o local se transforma em um fumaceiro só. Logo somos informados que o piloto do helicóptero avistou a fumaça e está vindo ao nosso encontro. Rapidamente os soldados bombeiros apagam o fogo. O helicóptero se aproxima, desce e pousa. “-Graças à Deus mais uma vez!” penso comigo. “-Vamos colocá-lo logo no helicóptero antes que o sol se ponha e dificulte a decolagem do aparelho!”, diz o piloto. Meu Deus! Cada mexida em mim é uma dor infinita. Mordo minha luva para amenizar um pouco e dá certo.

Sou colocado no helicóptero e devidamente amarrado na maca. Agradeço aos bombeiros que irão ficar ainda na mata e terão muito chão pela frente retornando caminhando ao ponto de onde eles partiram.

O helicóptero decola. Um dos soldados ainda brincam comigo, dizendo que a culpa era da minha pochete do Fluminense que carrego em todas as trilhas com meus documentos. O piloto ainda rebate dizendo que se falarem mal do Fluminense ele irá desligar o motor do helicóptero.
Em menos de 5 minutos a aeronave já está pousando no campo de futebol da Polícia Militar de Nova Friburgo, ao lado do Hospital Raul Sertã. Pouso perfeito. Nova troca de veículo, saio do helicóptero e entro no carro da polícia, para que possam me levar ao setor de emergências do hospital.
Quando chego ao hospital, as pessoas evitam me olhar. Acho que eles deviam estar pensando que eu era algum bandido perigoso por estar machucado num banco traseiro de um carro da polícia. “-Sem problemas!”, penso comigo. Me colocam em uma maca e me levam ao setor de raio x, onde constata-se a fratura de Tíbia.
Por sorte, o osso quebrado está em uma posição em que será necessário somente engessar a perna, sem nenhuma redução ou algo parecido.
Saio da sala de gesso devidamente imobilizado, com um belo e pesado gesso que vai da ponta do dedo até a altura da virilha.
Sou levado pra casa são e salvo por meus amigos e às 19:35 finalmente me vejo deitado em minha cama, e eu havia esperado muito por este momento!
Agora é ter paciência de esperar passarem os 60 dias de gesso para que eu volte a praticar meu esporte favorito que é andar de moto pelas trilhas com meus amigos.
Gostaria de agradecer aos soldados do 2º Destacamento do Corpo de Bombeiros/RJ que me salvaram na mata, que eu considero verdadeiros heróis!
Sargento Elcio DUARTE;
Sargento IDIVALDO Pereira;
Cabo Aloísio GROSSI;
Cabo Cleiton CALIOCANE e
Cabo MONIQUE OLIVEIRA
... o meu muito obrigado!
Gostaria de agradecer também aos meus companheiros de trilha Padrone, André Bala, Luismar e Cláudio, que em nenhum momento me abandonaram ou ficaram chateados por eu ter sido um pouco culpado pelo dia de trilha “perdido”. Considero isto como companheirismo de verdade!
Raul Silveira Simões – Trilheiro há 9 anos – Nunca havia se machucado em trilhas.
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